Checagem e Verificação

Foto: Sérgio Lüdtke/ Projeto Comprova

Desinformação Impõe Nova Pauta

Cabe ao jornalismo corrigir informações incorretas e
desmascarar mentiras deliberadas

 

A crise do modelo de negócios do jornalismo e o uso massivo das mídias sociais vêm transformando globalmente o ecossistema da informação em um ambiente cada vez menos mediado pelo jornalismo e, por consequência, mais suscetível à desinformação – a produção deliberada de informações falsas, criadas para distorcer o debate público.

 

Quando concentramos o foco no Brasil, é necessário acrescentar algumas lentes, camadas de cenários que ajudam a compor uma visão mais ampla do estado da desinformação no país.

 

três cenários básicos: político, das mídias sociais e de confiança.  

 

O cenário político, o mais visível, vem se transformando desde os movimentos de junho de 2013, quando as bandeiras deixaram as ruas e migraram para as redes sociais. Esse cenário ganhou contornos morais com o combate à corrupção promovido pela Lava-Jato e exibe um país dividido depois do impeachment de Dilma Rousseff e da eleição de Jair Bolsonaro. O fim do financiamento legal de campanhas eleitorais por empresas deu uma demão de cinza nessa paisagem reforçando os vínculos eleitorais com grupos organizados da sociedade, legais ou ilegais, e criando maior dependência do ativismo nas redes sociais.

O uso intenso das redes pela política reforça a importância do cenário das mídias sociais. Em outubro de 2018, quando Bolsonaro foi eleito, o número de usuários ativos no Facebook chegou a 127 milhões, no WhatsApp eram 120 milhões. Tais números fazem mais sentido quando comparados com o total de eleitores que votaram no segundo turno da eleição. Foram 115,9 milhões os eleitores; 104,8 milhões foram votos válidos.

O terceiro é o cenário da confiança. Ele ajuda a entender por que a informação não mediada pelo jornalismo parece mais fluente nas redes sociais. Em 2019, o índice de confiança em “pessoas como você” liderava, com 74 pontos, o ranking de confiança do Trust Barometer [página 28].

 

Na outra ponta, estavam os jornalistas, com 36, e autoridades do governo, com 32 pontos. A confiança em jornalistas caiu 11 pontos em relação a 2018, num cenário em que todas as 10 demais categorias cresceram. Não é mais só um ambiente, mas um solo fértil para a desinformação.

Outro fenômeno que progride a partir desses cenários é a quebra na sequência lógica da formação de opinião baseada em informação. No ambiente da desinformação, opinião e informação não só são vistas como independentes como muitas vezes não se faz distinção entre uma e outra.

 

Infográfico: A Trombeta de Amplificação, mostrando como mentiras deliberadas são produzidas e viralizadas na Web/ Claire Wardle - First Draft 

 

 

Exemplo da estrutura narrativa do Projeto Comprova

 

Vídeo produzido pela Agência Lupa

Ferramentas úteis

Para finalizar, vamos conhecer três ferramentas que irão ajudá-los na produção de memes, imagens e vídeos para produzir e divulgar conteúdos de verificação. Elas são gratuitas ou têm versões trial ou freemium

Canva

Canva é uma poderosa ferramenta para criar do zero ou a partir de templates prontos peças para ilustrar ou contar histórias sequenciadas com imagens. Muito fácil de usar, o Canva ainda permite que você escolha os formatos específicos para as plataformas onde pretende publicar.

Reprodução: Canva

Lumen 5

O Lumen 5 é uma ferramenta muito amigável para produzir com muita rapidez vídeos para compartilhar em redes sociais. É extremamente útil para animar imagens e incorporar textos que ajudem a produzir narrativas em vídeo com muita qualidade.

Reprodução: Lumen 5

Kine Master

O KineMaster é uma ferramenta incrível para produção de vídeos com qualidade profissional para web. É um aplicativo muito intuitivo e poderoso para editar em dispositivos móveis.

Reprodução: Kine Master

O Ecossistema da Desinformação

Uma das principais referências internacionais sobre o tema, a britânica Claire Wardle, (que você vê aqui em uma conferência TED em 2019) diz em um texto já clássico publicado no site da organização First Draft, que para entender esse ecossistema é necessário considerar três pontos:

 

1 - Os diferentes tipos de conteúdo que estão sendo criados e compartilhados

 

Wardle descreve sete tipos distintos de conteúdos problemáticos que transitam pelo nosso ecossistema de (des)informações. Ela os coloca em uma escala que tenta medir a intenção de enganar.

 

Gráfico: O Ecossistema da Desinformação / Claire Wardle - First Draft

2 - As motivações de quem cria este conteúdo

Claire Wardle diz que se queremos encontrar soluções para o problema da desinformação é importante entender as motivações de quem cria esses conteúdos. No caminho dessa compreensão há um enorme desafio: encontrar os criadores dos conteúdos originais.

 

Quando estamos investigando conteúdos suspeitos compartilhados em redes sociais ou em aplicativos de mensagens, encontrar as fontes primárias é uma tarefa muitas vezes demorada e onerosa, de difícil adequação à estrutura e ritmo das redações. Iniciativas colaborativas como o Projeto Comprova têm mais facilidade para isso. Uma prova está neste exemplar estudo de casos.

3 - Como este conteúdo está sendo disseminado

Finalmente, Wardle diz que precisamos pensar em como e por quem esse conteúdo está sendo divulgado, listando alguns vetores:
 

  • Pessoas que compartilham inconscientemente nas redes;
     

  • Jornalistas que, sob pressão para relatar as informações emergentes das redes sociais em tempo real, acabam ampliando o alcance dos conteúdos enganosos;
     

  • Grupos que tentam deliberadamente influenciar a opinião pública;
     

  • Redes de bots e fábricas de trolls que disseminam sofisticadas campanhas de desinformação;

"Quando as mensagens são coordenadas e consistentes, elas facilmente enganam nossos cérebros", conclui.

Desordem da informação

No Brasil, acabamos usando uma simplificação para definir o fenômeno, chamando-o por desinformação. Para Wardle, o termo só define uma parte. Ela vai mais além e propõe uma classificação que considera o caráter de cada tipo de conteúdo enganoso. Nessa escala, ela sequencia: 

  • Misinformation [informação incorreta] — conteúdo enganoso, falsas conexões;
     

  • Disinformation [desinformação] — falsos contextos, conteúdo impostor ou fabricado; 
     

  • Malinformation [malinformação] — vazamentos, assédio, discurso de ódio.

Não importa em que classificação o conteúdo viralizado com capacidade de causar dano se situa, ele precisa ser tratado. E um dos tratamentos que se tem dado ao conteúdo enganoso é o da verificação ou checagem, uma mediação jornalística necessária mas insuficiente para conter a criação ou a propagação da desinformação.

Verificação e Checagem

A checagem de fatos ou fact-checking é uma disciplina do jornalismo muito usada nas redações no século 20 e que ganhou relevância nas duas últimas décadas com o surgimento de organizações dedicadas à checagem do discurso de autoridades e pessoas públicas.

Bill Aidar, que fundou em 2007 o Politic Fact, uma dos pioneiras do moderno fact-checking, faz uma distinção entre a checagem anterior e o que se faz agora.

 

Segundo ele, “a checagem de fatos é uma forma relativamente nova de jornalismo, na qual os repórteres pesquisam a exatidão das declarações de políticos. No passado, a checagem de fatos era feita principalmente em anúncios políticos, mas foi expandida para qualquer tipo de declaração — discursos, entrevistas, press-releases e até mesmo tweets.”

Já a verificação é o processo de determinar a autenticidade de informações publicadas por fontes não oficiais em meios digitais, principalmente em plataformas sociais e aplicativos de mensagens.

Essas definições, no entanto, já não refletem o trabalho feito pelas agências e sessões de checagem de veículos de comunicação. Cada vez mais esses trabalhos são feitos pelos mesmos profissionais, tendência que se acelerou depois que o Facebook lançou seu Third Party Verification Project e passou a contratar agências certificadas pela IFCN para verificar a veracidade de conteúdos denunciados em sua plataforma.

O trabalho de verificação e tratamento da desinformação não se resume ao jornalismo investigativo. É um processo mais amplo e que exige muita atenção e dedicação em três etapas que vamos conhecer na sequência: monitoramento, verificação propriamente dita e narrativas (ou distribuição).

A etapa de monitoramento é uma das mais complexas do trabalho de verificação. Em um universo tão amplo, do qual fazem parte todas as pessoas que usam as redes sociais e os aplicativos de mensagem, é necessário muito foco e planejamento para identificar conteúdos duvidosos, que possam suscitar entendimentos enganosos ou causar algum tipo de dano. 

Definição do foco de monitoramento

A definição clara e precisa do que será monitorado é crucial para que o monitoramento possa pescar na rede informações suspeitas que devem ser verificadas. Ao definir o foco como eleições municipais, por exemplo, devemos primeiramente analisar o contexto em que essas eleições estão sendo realizadas e os cenários (político, econômico, histórico, ambiental, etc.) que possam nos ajudar a responder às seguintes perguntas:

Quem são os atores envolvidos?

Os atores são todas as pessoas, segmentos da sociedade, empresas e instituições que possam ser ou produtores ou alvo de conteúdo enganoso. No monitoramento, eles estarão representados pelos seus próprios nomes, mas também por seus perfis, grupos e páginas nas redes sociais. Numa eleição municipal, por exemplo, entre os atores estão: candidatos, seus assessores, amigos, familiares e empresas ou instituições ligadas a eles; autoridades; influenciadores da comunidade; partidos políticos com atuação local; órgãos públicos; empresas; e organizações da sociedade civil que atuam no âmbito do município. 

Quais são os temas a monitorar?

Os temas para monitoramento são todos os assuntos que se possa relacionar ao foco do monitoramento. Parte deles é possível prever, mas há uma dinâmica que obriga o monitoramento a atualizar constantemente a lista de temas a serem acompanhados. Numa eleição municipal, por exemplo, a partir da análise dos cenários, é possível relacionar os temas da campanha, os problemas que a cidade enfrenta, as preocupações dos cidadãos etc. Mas há também novos temas que surgem a partir da evolução da campanha, uma pesquisa, um debate, uma denúncia, uma #hashtag, ou seja o que está nos "trending topics" locais. 

Que plataformas são utilizadas?

Definidos foco, atores e temas, há elementos suficientes para que se possa definir também quais serão as plataformas que serão monitoradas. Numa eleição municipal, é provável que ao menos Facebook, Instagram, YouTube e WhatsApp sejam plataformas mereçam atenção dos verificadores. Dependendo do tamanho da cidade e de sua população, outras plataformas como Twitter, Linkedin, Telegram, sites e blogs, e até Snapchat, Reddit, 4Chan, Gab, TikTok e Mastodon também devam ser consideradas.

Como as ferramentas de busca podem ajudar 

Buscadores podem ajudar na tarefa de encontrar nas redes sociais perfis, grupos e páginas que estejam associados aos temas do monitoramento. Para isso, podemos usar os operadores de busca, regras que incluímos nas caixas de busca para orientar as ferramentas a nos trazer um resultado que atenda melhor a nossa necessidade de informação.

Twitter

As listas de Twitter são um poderoso instrumento de apoio ao monitoramento. Na plataforma, podemos criar até mil listas em cada perfil e cada uma dessas listas pode conter até 5 mil perfis. Para economizar tempo, podemos também procurar por listas criadas por outros usuários e que reúnam perfis relacionados ao tema que queremos acompanhar.

Para encontrar listas públicas de outros usuários, devemos escrever na caixa de busca do Google o seguinte termo:

site:twitter.com/*/lists "palavra-chave"

Esse comando que enviamos ao buscador informa a ele que queremos delimitar nossa busca ao Twitter [site:twitter.com], que estamos buscando em todos os perfis do Twitter [/*/], que buscamos por listas [lists], que tenham no nome a referência ao tema que estamos buscando. Esse tema estará descrito em lugar de "palavra-chave".

Veja este exemplo para a busca site:twitter.com/*/lists vereadores ES.

Facebook

Operadores similares ajudam a encontrar páginas e grupos públicos no Facebook.
 

Para encontrar páginas, use o seguinte operador:

site:facebook.com/pages-places "palavra"

Nesse caso, incluímos no operador uma chave [-places], com o sinal negativo à frente, para ocultar do resultado da busca as páginas de locais.
 

Para encontrar grupos públicos:

site:facebook.com/groups "palavra" 

Instagram

Também usamos operadores para fazer buscas no Instagram.

site:instagram.com "palavra-chave"

ou

site:instagram.com -inurl:/p/ -inurl:/explore/ "palavra-chave"

Nesse segundo operador, indicamos ao Google que queremos ocultar resultados em publicações [-inurl:/p/] e no explore [-inurl:/explore/].

Para buscar canais no IGTV:

site:instagram.com/*/channel "palavra-chave"

Monitoramento

Na etapa de planejamento, as informações reunidas na definição de foco serão usadas para alimentar ferramentas que darão suporte ao trabalho de monitoramento. Há várias formas de fazer isso, mas o uso de planilhas é fundamental. Este template já está preparado para receber as listas do que foi coletado na definição de foco. Sinta-se à vontade para copiá-lo e criar suas próprias planilhas.
 

O monitoramento é uma tarefa constante e trabalhosa. Monitores costumam lidar com uma quantidade muito grande de dados e seu trabalho produz melhores resultados quando fazem uso de ferramentas que automatizam processos.

Aplicativos e ferramentas de monitoramento

Há muitas ferramentas disponíveis no mercado para fazer monitoramento de redes sociais. A maior parte delas é paga, mas mesmo essas têm algum modelo de uso gratuito, trial ou freemium, como Hootsuite, Crowdfire, Hubspot, Awario ou Torabit.

Vamos nos dedicar aqui a mostrar o funcionamento de ferramentas gratuitas, mas nem por isso menos eficientes.

 

Google Alertas e Google Trends

Alerts e Trends são ferramentas do portfólio do Google muito úteis para as tarefas de monitoramento, cada uma com sua especificidade.
 

Google Trends mostra os termos mais populares buscados recentemente no Google. É uma ferramenta baseada em gráficos que mapeia o interesse das pessoas por um termo em determinado período ou região.
 

Google Alertas é extremamente útil porque permite uma capilaridade maior e monitora além das plataformas sociais. Basicamente, é um modo de pedir ao Google que envie alertas toda vez que um nome ou um determinado termo é publicado em algum site na internet. E é possível configurar a frequência, as fontes, idioma e região em que os conteúdos foram publicados. 

 

CrowdTangle

CrowdTangle é uma ferramenta muito eficiente para monitorar Facebook, Instagram, Reddit e até algumas instâncias de Twitter e Google Trends. Ele é gratuito, mas não é aberto. É uma ferramenta que pertence ao Facebook e o acesso deve ser solicitado à plataforma.
 

No CrowdTangle inserimos as listas de perfis, grupos e páginas que obtivemos na definição do foco do monitoramento e podemos navegar por essas listas ou por buscas que podem ser pré-configuradas para atender aos nossos requisitos.
 

O diferencial desta ferramenta é a possibilidade de exibir os resultados do monitoramento pela sua viralização num determinado período de tempo.

Planejamento

 

Reprodução: CrowdTangle

TweetDeck 

O TweetDeck monitora perfis, listas e tópicos publicados no Twitter e apresenta essas informações em colunas que são configuráveis. É possível configurá-las para que exibam tuítes com um mínimo de engajamento (para filtrar as postagens de maior impacto), que mencionem um determinado nome ou expressão ou hashtag, ou que tenham sido publicadas em um determinado local ou perímetro. O TweetDeck, assim como o Google, permite o uso de operadores em seus campos de busca. A combinação desses operadores pode ser muito eficiente para o monitoramento.

 

Reprodução: TweetDeck

Extensões de browser

Há duas extensões de Chrome muito úteis para o trabalho de monitoramento.
 

Uma delas é do CrowdTangle, que vimos acima. Essa extensão permite identificar, ao navegar em uma determinada página, quantas vezes esse conteúdo foi compartilhado e quem o está compartilhando com mais viralização. Essa informações são fundamentais para decisão sobre a pertinência de verificar a veracidade dos conteúdos e muito úteis para identificar novas páginas, grupos e perfis que ainda não estavam no radar do monitoramento. Saiba como instalar usando este tutorial.
 

A outra é do NewsWhip, uma poderosa ferramenta de monitoramento de redes sociais. Esta extensão funciona de modo muito similar a do CrowdTangle, mas monitora também o Pinterest e consegue fazer uma previsão do nível de viralização do conteúdo, o que é uma informação muito preciosa para quem trabalha com verificação.

Aplicativos de mensagens

É muito difícil fazer monitoramento de aplicativos de mensagens na medida em que eles são fechados e criptografados. Há duas maneiras de minimizar essa dificuldade.
 

Uma delas é participar de grupos de WhatsApp ou Telegram que tratem dos temas que estão sendo monitorados. Esse procedimento, no entanto, traz questões éticas para o jornalista se ele se apropria dos conteúdos sem informar ao grupo previamente o seu intuito.
 

A outra é divulgar um número para o público enviar denúncias ou sugestões de verificação para os conteúdos duvidosos que recebem nos aplicativos.
 

Em ambos os casos, o verificador deve checar a viralização desses conteúdos nas plataformas que consegue monitorar para não cair em armadilhas ou dar oxigênio a boatos de menor relevância.

Como identificar conteúdos suspeitos

O monitoramento filtra conteúdos que estejam sendo compartilhados nas redes sociais e que tenham muita viralização. 
 

Para que um conteúdo possa ser considerado suspeito, no entanto, é preciso entrevistá-lo:

  • O conteúdo da postagem pode causar dano a alguém?
     

  • Os números da viralização são compatíveis com o tamanho da rede de quem o publicou?
     

  • O conteúdo foi publicado por uma fonte conhecida e confiável? 
     

  • A postagem oferece links para fontes originais? Essas fontes confirmam a informação da postagem que está sendo analisada?
     

  • É possível identificar a autoria de um texto ou a pessoa que captou uma imagem ou vídeo usado no post?
     

  • É possível identificar quando, onde, como, quem está retratado e em que circunstâncias uma foto ou vídeo usado na postagem foi captado?
     

  • É possível identificar as motivações de quem fez a postagem?
     

  • O autor é realmente quem diz ser?
     

  • Há algum indício nos comentários de que o conteúdo postado seja enganoso?
     

  • Seu conhecimento sobre o assunto é suficiente para acreditar na veracidade do conteúdo?

Verificação

Constatada a suspeita sobre a veracidade do conteúdo de uma postagem, podemos dar início ao trabalho de verificação. De novo, essa verificação terá de responder a perguntas suscitadas pela suspeição e tentar obsessivamente chegar ao conteúdo original e à pessoa que o criou.

Antes de qualquer coisa, porém, é necessário tomar uma precaução. É comum que ao fazer contato com pessoas que produziram ou disseminaram um conteúdo enganoso ele seja deletado das redes. Quando isso acontece, há o risco de perder todo o trabalho de verificação. Para que isso não aconteça, é necessário fazer o registro do conteúdo suspeito. Faça sempre uma captura de tela e grave a página em uma aplicação como Archive Today ou WayBack Machine.

Mesmo que a publicação original seja apagada, esses recursos a manterão online para você. Ambos têm extensões para browser que propiciam que a página seja gravada com um único clique. Tente também fazer o download dos áudios e vídeos que for investigar.

Para o trabalho de verificação, o jornalista pode lançar mãos de recursos do jornalismo investigativo convencional como conversar com suas fontes, entrevistar pessoas, pesquisar sobre o assunto ou consultar bancos de dados. O meio digital, no entanto, oferece uma série de outras ferramentas investigativas que são fundamentais para o trabalho de verificação. Os buscadores, como Google, muitas vezes nos oferecem caminhos para a verificação, quando não resolvem completamente o trabalho de investigação. Vamos conhecer algumas outras que resolvem problemas específicos.

Como verificar fotos

Há várias maneiras de verificar a veracidade de uma imagem. E também perguntas a fazer e ferramentas que ajudam a respondê-las. Para saber se estamos diante de um conteúdo original, quem tirou, onde, quando e por que a imagem foi captada podemos recorrer a alguns recursos e aplicativos. 

Busca reversa

A busca reversa é um meio de pesquisar na internet se uma determinada imagem já foi usada anteriormente em outro contexto ou se tem publicadas imagens semelhantes que possam colocar em dúvida ou confirmar a sua autenticidade. Há várias ferramentas que fazem esse tipo de busca, mas, como elas funcionam com algumas diferenças, a recomendação é usar mais de uma, se possível todas elas. 
 

A busca reversa é muito simples e consiste em fazer upload de um arquivo de imagem ou usar a url de uma imagem publicada na web. Os aplicativos geram, então, páginas de resultados de busca e nelas é preciso observar a presença da mesma imagem ou de uma imagem semelhante.
 

As principais ferramentas de busca reversa são Google Imagens, Baidu, Bing, TinEye e Yandex.  
 

O Karma Decay é uma ferramenta que faz busca reversa no ambiente do Reddit.

 

Reprodução: Google

Metadados

Dispositivos como câmeras digitais e smartphones gravam informações sobre as condições em que uma imagem digital foi captada. Esses dados acompanham os arquivos das imagens digitais e nos permitem acessar informações sobre o dispositivo e também a data e o local em que a imagem foi captada. Tais informações são conhecidas como metadados. E o padrão utilizado é chamado de EXIF (Exchangeable image file format).

A leitura dos metadados pode ser feita submetendo o arquivo da imagem a um aplicativo como EXIF Data Viewer, Metapicz, Jeffrey's Image Metadata Viewer ou VerExif. Esse último, além de mostrar, também serve para remover os metadados se você quiser fazê-lo. Sim, os metadados podem ser removidos com ajuda de alguma aplicação ou pelas próprias plataformas e aplicativos de mensagens quando compartilhados.

 

Foto: Sérgio Lüdtke  

 

Exemplo de metadados

Forensics

Para buscar mais evidências que permitam afirmar que uma imagem foi manipulada também podemos recorrer a ferramentas de análise forense. O InVid oferece alguns recortes que são muito úteis para detectar alterações realizadas em fotografias. A aplicação tem uma extensão para Chrome que é uma poderosa ferramenta para verificação de imagens.
 

Outra ferramenta útil para análise forense é o Foto Forensics. É um aplicativo web que analisa tanto imagens a partir de uma url quanto de um arquivo que se tenha feito upload para a ferramenta.

Reprodução: InVid

Orientação solar e clima

O clima e a orientação solar são recursos importantes para verificar a veracidade de uma imagem e há ferramentas que ajudam nessa investigação. O SunCalc, por exemplo, permite determinar a orientação solar e, portanto, a incidência de sombras em uma zona geográfica em um determinado dia e horário. Esse dado pode ser cruzado com as condições climáticas no dia e local que está sendo analisado. Uma busca pelas informações do clima com o Wolfram Alpha, uma espécie de buscador de dados estruturados, resolve a questão.

Reprodução: Wolpram Alpha

Reprodução: SunCalc

Como verificar vídeos

Para verificar a autenticidade de vídeos há também perguntas a fazer e ferramentas que ajudam a respondê-las. Para saber se estamos diante de um conteúdo original, quem tirou, onde, quando e por que o vídeo foi captado podemos recorrer a alguns recursos e aplicativos. 

A verificação de conteúdos de vídeo conta com uma ferramenta poderosa usada também para verificação de fotos, o InVID. É extremamente útil a extensão para o Chrome. o InVid trabalha a partir de seleção de cenas de um vídeo para fazer busca reversa ou usar outras funcionalidades, como forensics, para analisar as imagens. Nos resultados dessas buscas, poderemos encontrar outras imagens capturadas no mesmo cenário ou thumbnails de vídeos publicados no YouTube com contexto similar.
 

A Anistia Internacional criou uma ferramenta igualmente útil para analisar vídeos publicados no YouTube, é o YouTube DataViewer. A ferramenta também gera frames para busca reversa, mas extrai outras informações como, por exemplo, a data de upload do vídeo para a plataforma.

O Frame by Frame é um recurso muito útil se você necessita navegar frame a frame para detectar alguma manipulação em vídeos publicados no YouTube ou Vimeo.

 

Reprodução: Frame By Frame

Outras ferramentas que podem ajudar na busca e na análise de vídeos podem ser encontradas no OSINT Framework, um farto diretório online de fontes abertas que podem auxiliar no trabalho de verificação.

Narrativas para conter a desinformação

Como reportar o resultado de uma verificação tem sido um desafio constante para verificadores. Num contexto em que há um fluxo gigantesco de conteúdos digitais consumindo a atenção das pessoas, trava-se uma disputa desleal entre a informação e os conteúdos enganosos. Enquanto não há limites para a produção de falsidades, a verdade é delimitada pelos fatos. A mentira pode ser mais sexy que a verdade. E, portanto, ser mais atraente.
 

Além disso, as pessoas, via de regra, são fiéis às suas crenças e mais receptivas a conteúdos que confirmam suas convicções. Quando um conteúdo enganoso encontra amparo numa dessas convicções, muitas vezes fazendo uso de uma parcela de verdade, ele encontra uma vítima que possivelmente também irá passá-lo adiante. 

Como reportar uma verificação

A narrativa de verificação deve ser adequada à plataforma onde será publicada, com atenção especial àquela em que o conteúdo enganoso foi disseminado. 
 

A principal regra a ser seguida é não colocar combustível em boatos e conteúdos enganosos. Portanto, deve-se fazer somente uma referência suficiente para que aqueles que tiveram contato com o rumor ou com o conteúdo falso saibam do que se está falando. Assim, não se reproduz conteúdo falso e nem se dá links para seus criadores e disseminadores. Procure reforçar a verdade sem criar curiosidade para a mentira.  
 

Entender a razão pela qual as pessoas estão sendo levadas a acreditar em algo enganoso é chave para o desenvolvimento de uma narrativa de verificação. 
 

"Reconheça o núcleo de verdade que está presente. Mostre que você entende por que as pessoas podem acreditar em uma informação falsa". 

Peter Cunliffe-Jones - Fundador do Africa Check
 

O gol do verificador é obter uma retratação de quem publicou o conteúdo enganoso.

Elementos da narrativa de verificação

Independente do formato da narrativa e de onde ela será publicada, é preciso ter atenção a alguns elementos importantes.

Título

A função precípua do título é empoderar a verdade mais do que refutar uma mentira ou atrair os leitores.
 

Sempre que possível, devemos evitar repetir no título o conteúdo do rumor, mesmo como negação, para não reforçar o conteúdo falso.

 

Exemplo de post com título que reforça o conteúdo falso

 

Título criativo brinca com títulos de músicas de Chico Buarque

 

Título usado para negar rumor de que Obama seria muçulmano

Etiquetas

As etiquetas ou tags são um carimbo que reforça o resultado da verificação e muitas vezes são a parte mais visível de uma narrativa de verificação.
 

É recomendável que sejam usadas poucas etiquetas e que o significado de cada uma não deixe margem a dúvidas ou interpretações. Tenha cuidado para que elas não pareçam contraditórias quando exibidas próximas ao título. Por exemplo, se você usa um tom afirmativo no título e um negativo na etiqueta.
 

Leve em conta também onde o conteúdo com a etiqueta será publicado e se há contexto suficiente para que ela seja entendida. 
 

Etiquetas usadas no Comprova
 

Enganoso: Conteúdo retirado do contexto original e usado em outro com o propósito de mudar o seu significado; que induz a uma interpretação diferente da intenção de seu autor; conteúdo que confunde, com ou sem a intenção deliberada de causar dano.
 

Falso: Conteúdo inventado ou que tenha sofrido edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira. 
 

Sátira: memes, paródias e imitações publicadas com intuito de fazer humor. O Comprova verifica conteúdos satíricos quando percebe que há pessoas tomando-os por verdadeiros.
 

Comprovado: Fato verdadeiro; evento confirmado; localização comprovada; ou conteúdo original publicado sem edição.

Imagens

As imagens têm muita força na narrativa e é preciso ter cuidado para não dar destaque àquelas que podem reforçar o conteúdo enganoso. Use as imagens em favor da narrativa de verificação aplicando sobre elas máscaras ou cores e etiquetas que evidenciem a conclusão da verificação.
 

Dê preferência a capturas de tela e não use conteúdos de terceiros sem autorização de quem os produziu. 

 

Exemplo de uso de etiqueta no Twitter

 

Exemplos de uso de cores aplicadas sobre imagens no Projeto Comprova

Links

 

Os links têm papel fundamental na narrativa. Eles dão ao leitor a possibilidade de acessar as fontes consultadas pela verificação e refazer o caminho feito pelo verificador. A presença do link, portanto, cria também um elo de confiança entre este leitor e o conteúdo que ele está acessando
 

Nesse sentido, é obrigatório dar link para todas as fontes consultadas na verificação e exibir inclusive cópias de trocas de mensagens com fontes. 
 

Nunca devemos dar link para conteúdos falsos nem a quem os dissemina.

Estrutura narrativa e formatos

As narrativas podem usar diferentes formatos dependendo do público a que se destinam e a plataforma que será utilizada para publicação. A postagem em texto tende a ser a mais completa e estruturada e, a partir dela, podem surgir derivações para outros formatos ou roteiros para diferentes mídias.

A estrutura narrativa das postagens do Projeto Comprova, que aqui usamos como exemplo, segue rigorosamente um roteiro pré-estabelecido e tenta aprofundar as informações e ampliar contextos conforme o leitor vá evoluindo na leitura.
 

A estrutura narrativa dos posts do Comprova:

  1. Parágrafo inicial com a apresentação do conteúdo duvidoso e o veredito da verificação;
     

  2. Como verificamos, que método e ferramentas utilizamos para verificar o conteúdo duvidoso;
     

  3. A verificação em si;
     

  4. Os dados sobre o alcance obtido pelo conteúdo suspeito e a data de medição;
     

  5. Quem publicou o conteúdo original e quem distribuiu o conteúdo (sem link para conteúdo falso);
     

  6. Que outras organizações verificaram o conteúdo suspeito e link para essas checagens.